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Projeto de camiões alimentados por catenárias atirou 200 milhões de euros para o lixo

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Os números referem que 25% dos gases com efeito de estufa provenientes dos transportes rodoviários são causados por camiões de todas as dimensões. A UE quer a todo o custo reverter este problema. Em 2016, com as baterias ainda longe de proporcionarem o que proporcionam hoje, nasceu um projeto que visava implementar uma catenária sobre a faixa da direita das auto-estradas. Por aí os pesados de passageiros e mercadorias deveriam alimentar-se. Contudo… mais de 200 milhões de euros depois, tudo não passou de um fracasso!

Imagem de um camião com catenárias para fornecer eletricidade aos pesados


Projeto de camiões elétricos alimentados por catenária não avançará

A União Europeia enfrenta um grande desafio: a transição dos transportes pesados para tecnologias mais limpas. Segundo as entidades reguladoras, 25% dos gases com efeito de estufa provenientes dos transportes rodoviários são causados por camiões de todas as dimensões. No total, são responsáveis por 6% de todos os poluentes de gases com efeito de estufa registados na Europa.

Devido ao seu enorme peso e à dificuldade de eletrificar este tipo de veículos, os objetivos da União Europeia parecem extremamente ambiciosos. Os marcos mais importantes consistem em conseguir uma redução destes gases nas seguintes percentagens:

  • 45% a partir de 1 de janeiro de 2030.
  • 65% a partir de 1 de janeiro de 2035.
  • 90% a partir de 1 de janeiro de 2040.

Para atingir estes valores, a própria UE aposta nos camiões elétricos ou na utilização do hidrogénio, quer através de células de combustível, quer através da sua queima em motores de combustão. Mas tudo isto é uma evolução recente.

Em 2016, o mundo era muito diferente e as baterias elétricas para camiões eram ainda mais complicadas de implementar do que são agora. Foi por isso que a Siemens arranjou uma solução: colocar catenárias nas estradas. No entanto, sete anos depois, o desastre foi confirmado.

Tecnologia do passado para o futuro

Nem os veículos elétricos, nem esta ideia das catenárias nas estradas é novidade! Seguramente muitos ainda se lembram destas armações nas cidades portuguesas, assim como existiu um pouco por todo o mundo. Aliás, podemos mesmo recuar aos anos 50, 60… e até mesmo aos anos 80, para nos lembrarmos dos famosos tróleis, como o da imagem em cima, que circulava pelas ruas do Porto e de Gaia.

Neste tipo de veículo, um autocarro funciona com tecnologia totalmente elétrica ligada a uma catenária. Algo parecido com as carruagens do metro, mas sem a necessidade de criar uma via férrea.

O plano da Siemens era simples: implementar uma catenária sobre a faixa da direita das auto-estradas. Os autocarros híbridos poderiam funcionar com a energia da catenária enquanto estivessem ligados ou, pelo contrário, funcionar com o seu motor diesel quando estivessem fora da catenária. O investimento na estrutura para alimentar o veículo com energia elétrica deverá compensar largamente o custo do combustível e reduzir as emissões poluentes.

No mesmo mês de junho, a Suécia abriu a sua primeira estrada com este curioso sistema já instalado. O projeto teve eco na Alemanha, onde têm vindo a testar as suas vantagens. Em 2019, abriram a sua primeira estrada elétrica, compatível com camiões híbridos, elétricos e movidos a pilhas de combustível. Segundo os seus cálculos, só a eletrificação de 4000 quilómetros de estradas poderia poupar entre 10 e 12 milhões de toneladas de CO2.

O projeto-piloto consistiu em três instalações diferentes em locais específicos do país. A Continental e a Siemens, que investiram no projeto, esperavam fazer testes em maior escala em 2023. No Reino Unido, os primeiros ensaios terão início em 2024.

Agora, os planos para eletrificar as estradas da Alemanha parecem ter-se esfumado.

 

200 milhões “em sucata”

Embora desde 2019 tenha havido avisos de que o sistema poderia ser menos eficiente do que o esperado (na altura falava-se de uma poupança de combustível de 10%), agora a Universidade Técnica de Darmstadt mostrou que a redução das emissões seria entre 16 e, no máximo, 22% do CO2 emitido.

Uma diferença em relação aos camiões a diesel que não compensaria um maior investimento na tecnologia.

Os testes registaram também problemas com o posicionamento GPS dos camiões, desgaste excessivo da infraestrutura, isolamento defeituoso e até um acidente que obrigou a parar os testes durante meses para reparar a infraestrutura.

Para completar a má experiência, algumas infraestruturas concluídas desde 2018 não dispõem de camiões para realizar os testes, uma vez que o Ministério Federal do Ambiente atrasou a encomenda dos protótipos de camiões à Scania e só agora é que todas as unidades foram entregues.

Finalmente, 191 milhões de euros depois, a primeira pista de testes da Alemanha será desmantelada. O projeto foi duramente criticado pel

Pelo montante das experiências, poderiam ter sido comprados quase 2000 camiões diesel modernos com as últimas normas de emissões.

Disse o porta-voz do partido Os Verdes da Alemanha, que criticou duramente o projeto.

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Comentários

25

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  1. Avatar de Blackbit
    Blackbit

    É para isso que servem os testes e provas de conceito: testar novas soluções e tecnologias. Não funcionou, paciência… mas pelo menos agora sabe-se com conhecimento de causa que essa tecnologia nao serve e pode-se passar à frente.
    Se tivesse funcionado toda a gente diria que foi uma boa ideia e que valeu a pena.

    É assim que funciona o mundo da ciência: por na prática as teorias e retirar as devidas lições. Desta vez não funcionou, há que seguir em frente.

    1. Avatar de RC
      RC

      Concordo… mas quando se trata de 200 milhões numa prova de conceito….

      1. Avatar de Ifm
        Ifm

        Solar ranway
        Hiperloop
        Remover carbono do ar
        Etc
        Etc….

        Projecto sem pés nem cabeça, que qualquer eng, devia olhar e dizer….
        Que por@@ é está???

        Não é por na minha imaginação na terra atirar uma bola para o ar que ela não vai cair.
        As leis da física aplicam se a qualidade projecto…desde materiais a sua eficiência….

        Inventam com cada coisa sem base de funcionamento.

        Alguém anda a ganhar muito dinheiro, com estes projectos….
        Parece em Portugal os estudos e mais estudos de projectos que nunca saem do papel, nem nunca house intenção de sair.
        É só para limpar €€€€

        1. Avatar de Sigsegv
          Sigsegv

          Mas olhe que não está longe da verdade! Esses projectos na sua maioria servem para lavar dinheiro e esconder troca de favores. Então as empresas de TI isso sim é um verdadeiro regabofe. Enquanto que um produto físico está indexado ao valor dos materiais e trabalho, o software não tem limite no preço de venda….

    2. Avatar de AlexS
      AlexS

      Nem todas as ideias merecem provas de conceito e teste. Por isso não é assim que deveria funcionar o mundo da ciência.

  2. Avatar de Vasco
    Vasco

    Obviamente que o conceito tinha tudo para falhar. Só o custo impraticável da estrutura necessária ditou logo o projeto para o lixo. Como é que isto saiu do papel é que é a questão…

    1. Avatar de jorgeg
      jorgeg

      Projectos liderados por imbecis com um grande fundo financeiro.
      E mais do obvio que alguem deve ter ganho algo com isto.

  3. Avatar de eu
    eu

    ainda hoje seria melhor opcao que baterias

    1. Avatar de Américo Mendes
      Américo Mendes

      Leu a notícia?

  4. Avatar de ORK
    ORK

    Não percebo qual é o dilema aqui, é preciso testar e falhar para chegar ao sucesso, no decorrer gasta-se milhões e milhões em coisas que nunca chegam a ver a luz do dia e muitas nem sequer alguma vez se veio falar nos meios de comunicação.

    É certo que as coisas tem de evoluir, mas há algumas situações que não é tão simples como parece, isto das cantenárias, foi algo de outros tempos, nos dias que correm, não fazia qualquer sentido, mas pronto foi testado e chegou-se há conclusão que não tinha viabilidade, ao menos não se ficou na expectativa, agora o certo é que os transportes pesados, é complicado mudar a sua motorização atual a combustão por uma equivalente mais limpa devido a uma serie de condicionantes que neste momento levam a problemas que tem não existem com atual tecnologia.

  5. Avatar de Grunho
    Grunho

    A ideia em si tem tudo para dar certo: 1) não perde tempo em carregadores. 2) evita o trasporte de milhares de kgs em baterias e igual gasto em matérias primas. Os engenheiros que chefiaram isto deviam ser uma cambada de aselhas, e o facto de terem falhado não significa que volte a falhar no mundo inteiro.

    1. Avatar de João
      João

      Sim, mas obriga a uma infra-estrutra complexa.
      No meio urbano é possível.

      1. Avatar de Grunho
        Grunho

        Pelo contrário, nunca vi catenárias em meio urbano que não as dos trolleys do Porto e Coimbra.

    2. Avatar de ORK
      ORK

      Tudo muito certo, mas tu só estás a ver os Prós, então e os contras???, isso não viste, mas soubeste meter logo um atestado de burrice aos indivíduos que foram testar a viabilidade de tal tecnologia…

    3. Avatar de AlexS
      AlexS

      A ideia não tem nada para dar certo.

      Estar limitado a uma catenária não faz sentido para um camião desta dimensão. Um camião TIR tem de ser flexivel nos deslocapmentos que pode fazer.

      1. Avatar de Grunho
        Grunho

        Um TIR flexível é diesel. E diesel já está a passar à história. Camião é só para last mile. Não é eficiente, fica a anos luz da ferrovia. A catenária, eventualmente ajudada por uma pequena bateria, é a hipótese de o camião fazer um nadinha além da last mile. De resto, não vale a pena raciocinar em termos de TIR, que significa transporte internacional rodoviário. Como o conhecemos, tem os dias contados.

  6. Avatar de Manolo
    Manolo

    Em Coimbra lá circulam troleis

    1. Avatar de TiagoR
      TiagoR

      Uma cidade futurista e eco-inteligente 🙂

    2. Avatar de AlexS
      AlexS

      Quantas encomendas precisas de fazer com TIR’s em Coimbra nessas linhas?

  7. Avatar de Sigsegv
    Sigsegv

    A maioria dessas tendências motivadas pelo medo do fim do mundo só servem para encher o bolso a alguns. Hoje qualquer projecto por mais aberrante que seja tem financiamento basta apanhar com o rótulo do “verde” e “sustentável”. Este é só mais o exemplo da ponta visível do iceberg da quantidade de dinheiro de contribuintes que é gasto em projectos de

  8. Avatar de José
    José

    Podemos debater eternamente, mas considero que as mercadorias deveriam ser transportadas por comboios até às cidades e aí sim realizar a respectiva distribuição – Quem se lembra dos imensos trens de mercadorias com dezenas de vagões uns atrás dos outros? O problema foi ter-se desinvestido na Europa nas vias férreas para mercadorias, até nem iria custar muito já que muita da infraestrutura já estava construída, seria apenas necessário actualizar. Seria por outro lado: mais eficiente, rápido e ambientalmente mais sustentável com outra vantagem acrescida, tornaria as estradas mais seguras e duráveis ao retirar estes monstros das vias.

    1. Avatar de AlexS
      AlexS

      Ou seja queres que seja um burocrata a determinar as escolhas de milhões de pessoas.
      Depois queres que o burocrata tire redundância do sistema de transportes e que o ponto de falha seja uma linha de comboio.
      A União Soviética deu certo?

  9. Avatar de Joana Lemos
    Joana Lemos

    Eu tenho muito medo destes “verdes” extremistas..

  10. Avatar de JP
    JP

    Reduzam o transporte rodoviário em detrimento do ferroviário. Aí tem uma locomotiva com 20 vagões em vez de de 20 ou mais camiões… Mas os lobbys falam mais alto.

  11. Avatar de Cláudio
    Cláudio

    Caros elétricos uma furada.