Já havíamos falado neste “toque”, zumbido, ruído, como lhe queiram chamar, em 2006. Altura em que ainda era apenas “um toque para telemóvel”. Mais tarde, este som quase impercetível, foi utilizado com intenções claras.
Em 2009, algo novo começou a ouvir-se nas ruas de Tóquio. No parque Kitashikahama, distrito de Adachi, a polícia procurava combater os frequentes atos de vandalismo atribuídos a grupos de adolescentes, especialmente durante a noite.
Os estragos nos sanitários públicos e no mobiliário urbano implicavam elevados custos. A resposta chegou sob a forma de um som que grande parte da população não consegue sequer perceber.
A origem europeia: o nascimento do “Mosquito”
A história começa no Reino Unido, em 2005, quando Howard Stapleton, engenheiro britânico, recuperou uma memória da infância: aos 12 anos, visitando uma fábrica com o pai, foi forçado a sair devido a um som insuportável que os adultos não ouviam.
Anos depois, usou essa experiência para criar o “Mosquito”, um dispositivo que emite um zumbido de alta frequência, audível apenas por ouvidos mais jovens, geralmente até aos 25 ou 30 anos.
O objetivo? Afastar grupos de adolescentes que se reuniam à porta de lojas, gerando distúrbios e insegurança, sem intervenção direta.
O primeiro teste: eficácia comprovada em Gales
O primeiro ensaio prático ocorreu em Barry, no sul do País de Gales, em frente a uma loja Spar. Os adolescentes causavam problemas diariamente, insultos, consumo de álcool, invasões. Stapleton propôs instalar o dispositivo.
O resultado foi imediato: os jovens começaram a evitar o local. Alguns entravam com os dedos nos ouvidos, pedindo para desligar o ruído, mas eram informados de que o som servia para afastar aves devido à gripe aviária. De problemáticos, passaram a clientes silenciosos.
Som irritante, mas não doloroso… um zumbido dissuasor
O Mosquito emite um som pulsante acima dos 17 kHz, com intensidade até 80 dB, semelhante ao zumbido do tinnitus. Não causa dor, mas é suficientemente incómodo.
Stapleton testou várias frequências com os filhos até encontrar uma que não magoasse, mas incomodasse. O alvo não era castigar, mas dissuadir.
Embora alguns adultos ainda consigam ouvir, o dispositivo visa comportamentos típicos da adolescência, como ficar horas à porta de um café, bar ou comércio noite fora.
Expansão internacional: do Reino Unido ao Japão
O sucesso foi tal que lojas, centros comerciais, estações ferroviárias e autoridades começaram a adotá-lo.
Versões mais potentes, com botão de pânico, foram pensadas para travar roubos em massa (“steaming”).
A lógica era simples:
É difícil roubar com os dedos nos ouvidos.
Dizia Stapleton.
Esta é uma amostra de 10 segundos de um clip de áudio a uma frequência de aproximadamente 17,4 kHz.
Em 2009, o Mosquito chegou ao Japão. O distrito de Adachi, cansado dos elevados custos de vandalismo nos seus 470 parques, decidiu experimentar a solução.
Instalou o aparelho no parque Kitashikahama com o apoio da empresa Melc Co Ltd, como parte de um ensaio até março de 2010. A intenção era tornar o ambiente desconfortável para os infratores, sem incomodar os restantes cidadãos.
Nos comboios também se ouve o Mosquito
Em paralelo, algumas estações ferroviárias japonesas começaram a instalar dispositivos semelhantes.
Emitiam sons apenas audíveis por menores de 25 anos. Nas redes sociais, os jovens relatavam desconforto, caretas e passos apressados, sem perceberem a origem do som.
Os adultos passavam imperturbáveis. A tecnologia galesa tinha encontrado no Japão a sua aplicação mais sistemática e culturalmente aceite.
Entre a segurança e o estigma
Apesar do sucesso, o Mosquito gera debate. Alguns elogiam a capacidade de restaurar a tranquilidade sem recorrer à força. Outros acusam-no de estigmatizar a juventude, tratando-a como ameaça por defeito.
Stapleton defende-se: o alvo não é a adolescência, mas a falta de respeito. O objetivo é devolver os espaços públicos aos cidadãos pacíficos, sem recorrer à violência. Admite, contudo, que a solução não é definitiva e que deve ser usada com bom senso.










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