Browsers · Notícias

O grande mito da navegação anónima: não é anónima, nem nunca foi

17 Comentários

Muitos utilizadores recorrem ao modo de navegação anónima na crença de que este garante total anonimato online. No entanto, a realidade é muito diferente e esta funcionalidade oferece uma falsa sensação de segurança que deve ser desmistificada.


A ilusão dos modos de privacidade

O ritual é familiar. Abre um novo separador em modo privado, a janela do browser escurece e, de imediato, instala-se uma sensação de invisibilidade. Sem histórico, sem cookies, sem deixar rasto – certo? Errado.

A navegação privada nunca foi concebida para ocultar a sua identidade, mas sim para eliminar o seu histórico de navegação local. O seu fornecedor de internet, a sua entidade patronal, as agências governamentais e a esmagadora maioria dos websites que visita continuam a conseguir monitorizar a sua atividade.

O adjetivo “privado” associado a este modo de navegação é um dos maiores equívocos no mundo da tecnologia, iludindo utilizadores há quase duas décadas.

Quando a Google lançou o modo de navegação anónima do Chrome em 2008, a designação foi suficiente para criar uma perceção de segurança. A funcionalidade sempre incluiu um pequeno aviso a informar que a sua atividade “poderá continuar visível para os websites que visita, para o seu empregador ou para o seu fornecedor de Internet”.

Contudo, sejamos honestos: quem lê as letras pequenas? A mensagem principal era “anónimo”, o ecrã escurecia e a ideia transmitida era clara – o utilizador está oculto. Na verdade, nunca esteve.

O que a navegação privada realmente faz (e o que não faz)

Estes modos têm, de facto, algumas funções úteis, mas não se aproximam do nível de privacidade que muitos esperam. Quando utiliza o modo anónimo, o Chrome simplesmente ignora o seu histórico de navegação, a cache, os cookies e as informações de preenchimento automático. E é tudo.

Por outro lado, continua a registar o seu endereço IP, permite publicidade direcionada com base na sua atividade e não oferece qualquer proteção contra técnicas de browser fingerprinting (identificação do browser) ou contra o registo de dados por parte do seu fornecedor de Internet. Resumidamente, a sua utilidade é bastante limitada.

  • O seu fornecedor de Internet (ISP) consegue registar todos os domínios que visita e vender essa informação a anunciantes. Consegue igualmente monitorizar os seus downloads e favoritos.
  • Os websites podem criar uma “impressão digital” do seu browser com base na resolução do ecrã, nas fontes instaladas e noutros detalhes de hardware.
  • Os rastreadores (trackers) seguem o identificador único do seu dispositivo e os seus padrões de rede, mesmo entre sessões diferentes.
  • Empregadores ou instituições de ensino que monitorizam as suas redes conseguem ver o seu tráfego em tempo real.

Diversos estudos confirmam que os modos de navegação privada são pouco mais do que um placebo. Um artigo de 2017 das universidades de Princeton e Stanford, por exemplo, conseguiu associar mais de 70% dos participantes aos seus perfis de redes sociais apenas através da análise dos links visitados em modo anónimo.

O que deve realmente fazer para manter a privacidade online

A verdadeira privacidade online é um bem raro. Num mundo hiperconectado, parece que há sempre uma nova entidade a solicitar os seus dados ou um novo serviço a sofrer uma violação de segurança, expondo a sua informação pessoal na dark web.

Manter a privacidade na Internet não é fácil, mas também não é impossível. Requer apenas o conhecimento de algumas ferramentas e práticas:

  • VPNs: cifram a sua ligação, ocultando a sua atividade de ISP, governos e redes locais. Até mesmo uma VPN gratuita representa uma opção mais segura do que a navegação privada convencional.
  • Browsers focados na privacidade: alternativas como o Brave bloqueiam rastreadores por predefinição e utilizam motores de pesquisa privados.
  • Tor Browser: encaminha o tráfego através de múltiplas camadas de cifragem para um verdadeiro anonimato (ainda que com velocidades de ligação mais lentas).
  • Bloqueadores de anúncios e scripts: ferramentas que impedem a execução da maioria dos anúncios e scripts de rastreamento.
  • Filtros de DNS: soluções que bloqueiam domínios conhecidos por recolherem dados antes mesmo de serem carregados. A utilização de um fornecedor de DNS cifrado também é uma excelente medida para proteger as suas solicitações.

Não existe uma solução mágica de um só clique para a privacidade. Exige algum esforço e ponderação, mas é um objetivo perfeitamente alcançável.

 

Leia também:

Google prepara mais segurança para o Chrome e vai fazê-lo de forma muito simples

Também pode gostar

Comentários

17

Responder a Manuel da Rocha Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  1. Avatar de Anung
    Anung

    Navegação anónima é mito….
    Mas browsers com adblock não é mito….

    Atualmente é impossível navegar na internet sem eles.

    1. Avatar de Stanley
      Stanley

      Só usares o dispositivo e internet de outra pessoa. Simples.

    2. Avatar de mamba
      mamba

      Basta usar o BraveBrowser, tem adblock incluído e bloqueia trackers, cookies inúteis, etc.

      1. Avatar de Zé Fonseca A.
        Zé Fonseca A.

        só malta que não percebe nada de tech é que acha que bloquear trackers, cookies, etc lhes garante anonimato algum.. se soubessem a quantidade de ferramentas comerciais que existem para profiling que não dependem de nada disso, ja para não falar nas que as big techs desenvolveram e vendem como serviço, até faziam xixi na cueca tanto era o medo de abrirem o quer que seja..
        tudo uma cambada de meninos a brincar às escondidas com um browser.. parece que os se escondem debaixo da mesa ou atrás da arvore

      2. Avatar de Stanley
        Stanley

        Safari com retransmissão privada.

  2. Avatar de Hugo
    Hugo

    Quando abrem um separador anónimo toda essa informação lá está descriminada.
    Não lhe chamaria mito mas sim “coisas que algumas pessoas pensam por não lerem as informações prestadas”.

  3. Avatar de Zé Fonseca A.
    Zé Fonseca A.

    curioso afirmarem que o modo “in private” não facultam o anonimato ou privacidade, mas todas as soluções que dão também não garantem, desses todos só talvez vpns sem logging (que são muito poucas e conhecidas do publico). anonimato verdadeiro nem com Tor, anonimato verdadeiro só com dVPNs ou privacy networks.. DYOR

    1. Avatar de Manuel da Rocha
      Manuel da Rocha

      Essa é a verdade… 80000 euros anuais, é o mínimo dos mínimos, para ter, baixa visibilidade, online. Para uma boa, anónima, são 7 milhões de euros, por mês.
      Mesmo assim, podem ser identificados, por mandatos judiciais.

  4. Avatar de Fabricio
    Fabricio

    Sério, só agora que descobriram? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Quem acredita em anonimato na internet provavelmente acredita em coelhinho da páscoa e papai noel também

    1. Avatar de Hugo
      Hugo

      Não é crença é mesmo não querer ler:

      “Está na Navegação anónima
      As outras pessoas que usam este dispositivo não veem a sua atividade, por isso pode navegar de forma mais privada. Esta ação não altera a forma como os dados são recolhidos pelos Websites que visita nem os serviços que usam, incluindo o Google. As transferências, os marcadores e os itens da Lista de leitura são guardados. Saiba mais

      O Chrome não irá guardar:
      O seu histórico de navegação
      Os cookies e os dados de sites
      As informações introduzidas em formulários
      A sua atividade poderá continuar visível para:
      Os Sites que visita
      A sua entidade empregadora ou escola
      O seu fornecedor de serviços de Internet
      Os cookies de terceiros estão bloqueados
      Quando está no Modo de navegação anónima, os sites não podem usar cookies de terceiros. Se um site que depende destes cookies não estiver a funcionar, pode experimentar dar a esse site acesso temporário a cookies de terceiros.”

      1. Avatar de Sinistro é pouco
        Sinistro é pouco

        Nao meu caro. As coisas nao sao muito fácil igual voce imagina não. Por favor, não joga pedra na vítima, não joga pedra no leigo que nao entende nada, nao consegue nem ler um contrato geralmente. Para um leigo sair da bolha e ter conhecimento é necessário muito tempo e estudo, alem disso é necessário alguem informar a ele sobre isso avisar ele, as vezes um start é necessário um empurrao de um amigo. Eu estou tentando aprender já faz uns 4 anos depois que acordei e mesmo assim um tópico de discussao como esse aqui eu tenho voltar a aprender. Eu nao conhecia nada sobre os assuntos que o rapaz falou acima como (anonimato verdadeiro nem com Tor, anonimato verdadeiro só com dVPNs ou privacy networks.. DYOR). Ou seja, a gente acha que está seguro, a gente acha que sabe sobre o assunto, mas nao sabe nada. Infelizmente isso é uma luta constante e diaria para conseguir ter o mínimo de privacidade basica online na internet. E existe poucos tópicos falando sobre isso na clearnet, ou seja na surface.

  5. Avatar de Pedro António
    Pedro António

    Não há anonimato na internet. A PJ consegue detectar, com o tempo, qualquer criminoso. Mesmo com tudo apagadinho…. O tor é uma seca, talvez dê trabalho para ser anónimo mas por vezes é lento, lento….O Brave é um bom browser mas não é claramente focado no anonimato….

    1. Avatar de Zé Fonseca A.
      Zé Fonseca A.

      a PJ? essa grande autoridade de combate ao cibercrime.. ena..
      não quererás dizer UNC3T? igualmente uma grande autoridade de combate ao cibercrime

    2. Avatar de Ribeiro
      Ribeiro

      PJ nem sabe o que sao cookies, nem apanham um homem desarmado na cova da moura sem lhe darem um tiro.l.la bofia em Portugal tem de desaparecer, não faz sentido num pais tao seguro e honesto

      1. Avatar de Pedro António
        Pedro António

        Sobretudo o Sócrates, coitado…., uns apanham com tiros, outros com uns meses de prisão…. Tudo injusto, em Portugal, até já a santa igreja Apostólica e católica quiseram incriminar e houve também um banqueiro que por causa das manias das falsas acusações teve uma doença chamada amnésia que é grave. Acho que os portugueses não deviam ser tão queijinhas…. devíamos ser mais amigos e saber dar a outra face…

  6. Avatar de Manuel da Rocha
    Manuel da Rocha

    O modo anónimo é para não registar, no dispositivo usado, que se acedeu aquele site, naquela altura. Sempre foi essa a utilidade. Antes de existir, qualquer empresa, bastava chamar o histórico, sabendo 100% do que o funcionário fez, a que segundo fez e quanto tempo teve, a janela aberta, sem necessidade de qualquer programa autónomo, ou verificações, no servidor.
    Com os telemóveis, é que, cada vez mais, as empresas querem vender “Use a nossa app, para sua segurança.” Ora usar a app, da empresa, é dar 100% de tudo o que faz, com a sua própria autorização. Com o browser, há sempre esse risco, com 1, em cada 20 milhões, de utilizadores, a saber usar, o modo anónimo, para evitar ser descoberto, caso lhe acedam ao telemóvel.

  7. Avatar de Sergio J
    Sergio J

    E é muito. O modo anonimo muitas vezes chamado de porn mode é para nos tornarmos “anonimos” dentro da nossa máquina, não fora