Abriu telejornais em todo o mundo, foi manchete na internet em todas as línguas e tudo apontava para um golpe digno de um grupo altamente organizado, com métodos à moda de James Bond. Afinal, o roubo do Louvre foi uma “anedota”, começando logo pela palavra-passe que desativava o sistema de segurança: LOUVRE.
O sistema de segurança tinha palavras-passe triviais
O “roubo do século” continua a abalar a França, e alguns jornais revelaram falhas de segurança sensacionais no museu mais visitado do mundo. Documentos oficiais datados de 2014 e atualizados até 2024 parecem mostrar que as palavras-passe dos sistemas de videovigilância eram extremamente simples: “LOUVRE” e “THALES”, os nomes do museu e do software de segurança responsável pela sua proteção, respetivamente.
A descoberta, noticiada pelo Libération, lança uma luz crítica sobre um sistema considerado impenetrável, mas que revela vulnerabilidades claras. A ministra da Cultura, Rachida Dati, inicialmente defensiva, declarou que “os alarmes soaram”, mas mais tarde reconheceu, perante a Comissão de Cultura do Senado, que “houve falhas de segurança” e que será necessária uma investigação completa para determinar quem é o responsável.

No dia 20 de outubro, pouco depois da abertura do museu, um camião grua estacionado de forma incorreta na fachada voltada para o Sena facilitou um dos roubos mais ousados da história do Louvre. Dois homens invadiram a Galeria Apolo, uma sala que alberga alguns dos tesouros mais valiosos de França, cortando as vitrinas com rebarbadoras em poucos minutos.
O saque, avaliado em 88 milhões de euros em joias, foi recolhido e transportado por cúmplices que aguardavam em motas Yamaha T Max.
Palavras-passe e vulnerabilidades de segurança
As câmaras, que deveriam documentar todo o roubo, registaram imagens pouco nítidas e incompletas. Após uma semana de investigações, a polícia francesa realizou duas vagas de detenções, nos dias 25 e 29 de outubro, colocando um total de sete pessoas em prisão preventiva.
Quatro foram formalmente acusadas de roubo organizado e conspiração criminosa, enquanto três foram libertadas. Os principais suspeitos, dois homens de 37 anos, tinham antecedentes criminais por roubo desde 2015 e residiam em Seine-Saint-Denis.
A questão mais embaraçosa diz respeito à gestão digital do museu. Em dezembro de 2014, três peritos da Agência Nacional de Segurança dos Sistemas de Informação (ANSSI) realizaram uma inspeção à rede informática do Louvre, analisando câmaras, alarmes e controlos de acesso.
O relatório destacou um risco significativo: qualquer pessoa que obtivesse controlo da rede poderia facilitar roubos de arte.
Palavras-passe previsíveis ou triviais são, portanto, um dos elementos mais críticos de todo o sistema de segurança que permitiu o assalto do século.
A fortaleza caiu sob o olhar do seu próprio guardião
O Louvre, símbolo mundial da arte e da cultura, encontra-se agora sob intenso escrutínio público e mediático. O caso revelou problemas de gestão, manutenção fragmentada e falta de transparência. Para a ministra Dati, candidata à presidência da Câmara de Paris, o roubo representa um duro golpe político. A investigação administrativa continua em curso, mas o dano à reputação é já evidente: o museu que alberga a Mona Lisa não conseguiu proteger nem a si próprio.
Este episódio torna-se emblemático do paradoxo tecnológico moderno: ferramentas avançadas que deveriam garantir segurança podem, se mal geridas, transformar-se no ponto mais vulnerável de instituições aparentemente sólidas.











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